Texto originário a partir de um jogo solo usando Espadas & Punhais junto à Beyond the Wall and Other Adventures.
Algo estava errado em Pé de Monte.
Os animais de pasto adoeciam sem razão. As plantas murchavam antes do tempo. Nem mesmo os abutres voavam sobre a aldeia. Era como se o lugar estivesse sendo evitado por tudo que tinha instinto de sobrevivência.
Aisha percebeu os sinais.
Jovem e impaciente, fora instruída nos primeiros caminhos da magia pela bruxa Úrsula antes de esta partir. Desde então vivia sozinha na pequena cabana na borda da aldeia, com pouco além de um velho tomo de feitiços e as histórias que ainda ecoavam na memória.
Quando os sinais começaram, ela não esperou.
Algo se aproximava.
Na última noite sem lua, homens encapuzados surgiram na aldeia. Cercaram a estalagem da Lebre Cansada e atearam fogo ao telhado de palha. As chamas subiram rápidas, iluminando as casas próximas com um brilho cruel.
Assim como chegaram, desapareceram.
Ninguém os seguiu.
Ninguém soube dizer de onde vieram.
Dias antes do incêndio, Aisha já havia preparado um pequeno feitiço de escuta. A cada alvorada, repetia o mesmo sussurro ao vento, pronunciando o seu nome verdadeiro.
Então murmurava:
…Aquilo que fosse ouvido
seria falado.
Aquilo que ecoasse pela aldeia
a ela seria levado.
Aquilo que corresse no vento
também a ela entregado.
Da menor fresta
ao maior estalo.
Na noite do incêndio o aviso chegou depressa.
Mas quando Aisha alcançou a estalagem, restavam apenas o choro e o crepitar das vigas queimando. As pessoas observavam as chamas sem reação, como se algo lhes tivesse roubado o impulso de agir.
Aisha correu pela aldeia procurando pistas. A fúria ardia no peito.
Nada encontrou.
Apenas Álvaro, o louco da vila, jurava ter visto sombras cuspindo fogo contra a taverna.
— Inveja — repetia ele, balançando a cabeça. — Foi inveja.
Sem respostas, Aisha voltou para a cabana já alta madrugada.
Na manhã seguinte, uma caravana chegou.
Mercadores corpulentos, barulhentos e sorridentes instalaram tendas pelas ruas estreitas da aldeia como se aquela fosse a parada mais comum do mundo.
Aisha observava à distância.
Parecia conveniente demais.
A única estalagem ainda soltava fumaça negra quando as caravanas surgiram no horizonte.
Passava do meio-dia quando ela decidiu se aproximar.
As cigarras cantavam alto no calor.
Entre as tendas, uma mulher chamava atenção. Forte, com tatuagens em ambos os braços, cabelos negros e lisos escorrendo sobre uma túnica ocre. Um manto laranja repousava sobre os ombros e seus olhos tinham o brilho âmbar de quem já havia visto muitos desertos.
Aisha parou diante da mesa.
— Seu nome? — perguntou.
— Esma — respondeu a mulher, com um leve sotaque.
A aprendiz fingiu examinar os objetos expostos.
Bonecos talhados em madeira pintada. Cristais pontiagudos. Pedras de formas impossíveis — lisas e ásperas ao mesmo tempo, como se duas naturezas brigassem dentro delas.
Uma pequena pedra escura chamou sua atenção.
Ela a girou entre os dedos.
Nunca tinha visto algo assim nos ermos ao redor de Pé de Monte.
Esma inclinou-se um pouco para frente.
— Posso trocá-la — disse calmamente. — Por algo de valor equivalente.
Aisha hesitou.
O que ela possuía de valor?
Nada da cabana parecia realmente seu. Nada da aldeia também.
A única coisa que verdadeiramente lhe pertencia era o velho tomo de magia que recebera quando criança.
Mas esse não podia entregar.
— Ficaremos até a lua cheia — acrescentou Esma. — Catorze noites.
Aisha assentiu, ainda distraída.
Uma ideia atravessou sua mente como um relâmpago.
Ela largou a pedra.
Sem dizer palavra, saiu da aldeia.
Passou pela cabana, pegou o tomo e seguiu para o único lugar nos arredores onde alguém poderia se esconder sem ser facilmente encontrado.
As antigas ruínas.
Quando criança, costumava brincar ali com os amigos. Havia também uma caverna próxima — durante algum tempo correu o rumor de que ouro havia sido encontrado naquele lugar.
O rumor se mostrou falso.
Mas a caverna permaneceu.
No crepúsculo, Aisha alcançou as ruínas.
Entre as árvores, observou a entrada da caverna.
Grandes pedras haviam sido arrastadas para bloquear o caminho.
Aquilo não era obra do tempo.
A jovem se concentrou.
Seu plano era simples: abrir a passagem com força arcana. Se alguém viesse investigar, talvez conseguisse surpreendê-lo.
Recitou o nome verdadeiro do vento.
Mas algo respondeu.
Uma pressão pesada caiu sobre seus ombros. A mente ficou turva, como se neblina se espalhasse dentro da cabeça.
Tentaram enfeitiçá-la.
O impulso de Aisha — metade coragem, metade teimosia — impediu que o feitiço se completasse.
Ela recuou imediatamente.
Escondeu-se entre o mato, num ponto de onde ainda podia observar a entrada da caverna, mas distante o suficiente para evitar qualquer círculo de proteção mágico que pudesse ter sido traçado ali.
A noite passou devagar.
Aisha manteve vigília o máximo que conseguiu.
Quando a primeira luz da alvorada começou a tocar as árvores, ela ouviu passos atrás de si.
Virou-se.
Um senhorzinho corcunda e careca estava parado ali, segurando uma pequena cesta.
Silenciosamente, ele estendeu a mão para ela.

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